Acordo Boeing e Embraer, Compra e Fusão, ou Apenas Parceria? (Foto: Google Imagens/Reprodução)

Acordo Boeing e Embraer, Compra e Fusão, ou Apenas Parceria?

Acordo Boeing e Embraer, muito tem se falado nos últimos dias sobre um possível negócio entre a empresa americana e brasileira. Uma aproximação que começou após a gigante europeia Airbus anunciar a compra de 50,01% da empresa canadense Bombardier, principal concorrente da Embraer na área de jatos médios regionais. Ou seja, a principal rival da Boeing na área de aviões de grande porte, agora também estará presente no mercado de aviões médios regionais.

Obviamente, a união dessas duas potências do mercado da aviação (Airbus e Bombardier) fez com que a Boeing iniciasse o processo de buscas por soluções para entrar de forma competitiva também nesse mercado. E a melhor delas é através da empresa brasileira Embraer.



Mas não seria apenas a Boeing que sairia fortalecida desse negócio, com um novo nicho de mercado para ser explorado, a Embraer também poderia obter resultados extremamente positivos com esta parceria, aja visto que sua principal concorrente (a Bombardier) agora conta com um aporte financeiro e técnico gigantesco, colocando a empresa brasileira de fabricação de aviões médios regionais (Embraer) em preocupante desvantagem.

Abaixo veremos alguns pontos importantes sobre esse acordo Boeing e Embraer, os aspectos positivos e também os pontos negativos que poderão vir a surgir dependendo do tipo de negócio que será realizado.

I. Falácia sobre a Boeing ser uma empresa estatal

Já de início esclarecendo esta falácia espalhada de forma irresponsável por um intitulado ‘jornalista sério e de credibilidade’. Ao contrário do que esse senhor fez, aqui será colocada fontes para serem pesquisadas, dados que qualquer um tem acesso. Se ele tivesse dedicado uns minutinhos para ter feito uma rápida pesquisa sobre o assunto que comentou, teria evitado o papelão ridículo que fez. Claro, a menos que ele tenha algum parente, cunhado, vizinho… ou sei lá o que trabalhando especialmente para lhe fornecer informações secretas diretamente do Pentágono.



II. Participação acionista na Boeing

De acordo com sites especializados no mercado financeiro, os investidores institucionais detém uma participação maioritária na BA (código de negociação dos ativos da Boeing na Bolsa de Valores de Nova Iorque) através dos 72,05% das ações em circulação que eles controlam. Entre todas as empresas da indústria aeroespacial e de defesa, a Boeing é a que possui a maior quantidade de ações disponíveis ao público.

Além disso, até o final do terceiro trimestre de 2017, diversos grandes investidores compraram um total líquido de ações de seis milhões de dólares.

Participação acionista na Boeing (Dados do Gráfico: Nasdaq.com)

Participação acionista na Boeing (Dados do Gráfico: Nasdaq.com)

 

5 principais titulares de participações institucionais (Dados do Gráfico: Nasdaq.com)

5 principais titulares de participações institucionais (Dados do Gráfico: Nasdaq.com)

 É importante ressaltar que pode haver uma pequena variação entre os números apresentados dependendo do site financeiro visitado. Isso acontece devido à frequência que cada empresa realiza a atualização dos dados. Além disso, o governo dos Estados Unidos exige que as empresas comuniquem esta informação trimestralmente, mas muitas optam por informar com mais frequência. Como resultado, os negócios podem ter sofrido alterações, mas as mudanças ainda não aparecem na lista.

Situação muito parecida acontece também no mercado financeiro brasileiro, como por exemplo, no site da BM&FBOVESPA.

 Detalhes das ações da Boeing no CNNMoney.com;

 Lista de investidores institucionais da Boeing na NASDAQ.com;

 Maiores fundos e instituições acionistas da Boeing no Morningstar.com;

III. Participação acionista na Embraer

Assim como a Boeing, a brasileira Embraer também possui ativos disponíveis no mercado de ações, tanto no mercado financeiro brasileiro, através da BM&FBOVESPA, como na Bolsa de Valores de Nova Iorque (NYSE).

Segundo informações e dados pesquisados (todos disponíveis abaixo para consulta), os investidores institucionais adquiriram um total líquido de ações de 1,6 milhão de dólares da ERJ (código de negociação dos ativos da Embraer na bolsa americana) durante o terceiro trimestre de 2017.



Isso pode indicar que o dinheiro inteligente está ganhando participação significativa na empresa, já que os 49,71% das ações em circulação que os investidores institucionais detêm estão, na verdade, abaixo da média encontrada na indústria Aeroespacial e Defesa.

Participação acionista na Embraer (Dados do Gráfico: Nasdaq.com)

Participação acionista na Embraer (Dados do Gráfico: Nasdaq.com)

 

Posição acionária na empresa Embraer (Dados do Gráfico: BM&FBOVESPA.com.br)

Posição acionária na empresa Embraer (Dados do Gráfico: BM&FBOVESPA.com.br)

 Lembrando, existem pequenas variações de acordo com o site financeiro pesquisado. Sejam elas ocasionadas pelo período definido para atualizações, ou mesmo pelo tempo e a forma como os investidores decidem informar as operações realizadas (se constantemente, ou apenas no prazo determinado pelo governo).

Detalhes das ações da Embraer (EMBR3) na BM&FBOVESPA.com.br;

Participação de investidores institucionais na Embraer (NYSE:ERJ) no CNNMoney.com;

Lista de fundos de investimentos acionistas da Embraer (NYSE:ERJ) no Morningstar.com;

Divisão de ações e maiores acionistas da Embraer segundo a NASDAQ.com;

IV. Acordo Boeing e Embraer, compra e absorção?

Acordo Boeing e Embraer, compra e absorção? (Foto: Google Imagens/Reprodução)

Acordo Boeing e Embraer, compra e absorção? (Foto: Google Imagens/Reprodução)

É improvável que a Boeing acabe por adquirir a totalidade da empresa brasileira Embraer. A companhia americana já destacou que seu interesse é no setor de aviões médios da Embraer (que tem em seu portfólio de produtos aeronaves com capacidades que variam de 70 a 130 lugares).

O setor de defesa e segurança, incluindo projetos, pesquisas e desenvolvimento de aviões militares (com destaques para o Super Tucano e o cargueiro KC-390) não seria atingido. Mas obviamente, o que dá amparo financeiro para que esta divisão da Embraer funcione é justamente a parte que a Boeing negocia a compra.

V. Posição do governo e condições de compra

A Boeing quer resolver essa situação o mais rápido possível, pelo menos é o que informam sites como o Wall Street Journal. Para isso, a empresa americana estaria disposta a pagar um prêmio substancial referente ao preço de negociação mais recente da Embraer.

Além disso, buscando facilitar a negociação, a Boeing ofereceu manter a marca e a força de trabalho da Embraer intactas, e também disse estar disposta a trabalhar com o governo brasileiro para proteger o interesse da área de defesa e segurança da Embraer.

Mas nesse acordo Boeing e Embraer as coisas não são tão simples. A empresa brasileira de fabricação de aviões é a terceira maior do mundo, sendo, sem nenhum pingo de dúvida, um orgulho para nosso país e para nós brasileiros. O sua área de defesa também é de extrema importância estratégica para o país.



O governo brasileiro já adiantou sua posição, disse que a venda da Embraer, ou qualquer tipo de transferência de controle da empresa para a Boeing está fora de cogitação. Dando claro sinal que fará, caso necessário, uso da sua chamada “golden share”. Uma ação especial (legado da época em que a Embraer era estatal) que dá direito ao governo de barrar qualquer venda.

A Boeing com certeza não é a primeira a tentar comprar a Embraer, mas obviamente é a maior que já demonstrou real interesse. Esta posição do governo, de já deixar claro que não autorizaria a venda da companhia brasileira, demonstra o quão difícil seria para a empresa americana concluir a compra da área de aviões médios da Embraer.

Entretanto, a possibilidade de estreitar a relação, buscar uma parceria, é algo que traria benefício para ambas às empresas.

VI. O motivo do interesse mútuo em se unir

O motivo do interesse mútuo em se unir (Foto: Google Imagens/Reprodução)

O motivo do interesse mútuo em se unir (Foto: Google Imagens/Reprodução)

Há uma boa razão pela qual a Boeing e a Embraer estão gastando esforços significativos na negociação de um acordo, mesmo com a provável oposição do governo brasileiro. Trabalhar em conjunto é o melhor caminho para as duas empresas competir com a Airbus no futuro.

Há dois meses, a Airbus anunciou a compra de 50,01% das ações do programa de jatos CSeries da Bombardier (aprovação regulatória pendente), e que também assumirá a responsabilidade total pelas vendas, marketing e suporte ao cliente.

Esta mudança deve aumentar as vendas da família de aviões bimotores CSeries, dando aos potenciais compradores a confiança de que os jatos CS100 e CS300 de 100 a 150 lugares não se tornarão modelos órfãos. A Airbus também poderá oferecer os jatos CSeries como parte de pacotes que incluem os modelos maiores fabricados pela empresa (como o Airbus A380).

VII. Desvantagem na concorrência e novidades da Embraer

A união da Airbus e da Bombardier deixa a Boeing em desvantagem, pois seu menor modelo (o 737 MAX 7) é maior e significativamente mais caro para operar do que os jatos CSeries. Enquanto isso, a Embraer passa agora a se ver concorrendo diretamente com uma empresa com mais de 10 vezes o seu tamanho. Já é difícil convencer as companhias aéreas a olhar para além da Boeing e da Airbus para as compras de aeronaves, imagine agora.



Colocar as linhas de produtos Boeing e Embraer juntos teria muito sentido. O portfólio de jatos comerciais da Embraer abrange a faixa de 70 a 130 lugares, enquanto a Boeing começa em cerca de 140 lugares. Além disso, os primeiros aviões da nova família E2 da Embraer estão programados para entrar em serviço já neste ano, então a Boeing ficaria recebendo um novo produto sem assumir nenhum risco de desenvolvimento significativo.

VIII. Uma joint venture pode ser perfeitamente adequada

Uma joint venture pode ser perfeitamente adequada (Foto: Google Imagens/Reprodução)

Uma joint venture pode ser perfeitamente adequada (Foto: Google Imagens/Reprodução)

Embora o governo brasileiro possa impedir a Boeing de comprar a Embraer, ele não irá impedir uma joint venture entre as duas empresas (na verdade, a Boeing e a Embraer já têm uma joint venture no espaço de defesa cobrindo vendas internacionais e suporte para o novo jato militar KC-390 da Embraer). Uma joint venture – talvez incluindo um investimento minoritário – poderia trazer para ambas as empresas muitos dos benefícios de uma fusão completa.

IX. Objetivo da Boeing

O principal interesse da Boeing em um acordo está relacionado com a ampliação do seu portfólio. Se a Airbus oferecer um pacote de aeronaves cada vez maiores para um cliente potencial, a Boeing quer ser capaz de concorrer à altura com uma oferta similar. E para isso, a Boeing não precisa necessariamente possuir um programa de jatos de 100 lugares. Ela só precisa ter a capacidade de vender um avião nesse tamanho.



X. Interesse da Embraer

Interesse da Embraer (Foto: Google Imagens/Reprodução)

Interesse da Embraer (Foto: Google Imagens/Reprodução)

Do ponto de vista da Embraer, o objetivo principal de uma parceria seria estimular as vendas de jatos da série E2. A Embraer acredita que muitas companhias aéreas seriam mais lucrativas se acrescentassem jatos menores às suas frotas para atender rotas de menor demanda. No entanto, a Boeing e a Airbus dizem a essas mesmas companhias aéreas que é mais eficiente ter uma frota uniforme de jatos maiores. Uma joint venture com a Boeing mudaria essas conversas, dando à Embraer uma chance de expandir dramaticamente sua base de clientes.

Comprar a Embraer pode ser a maneira mais simples da Boeing combater o novo negócio da Airbus com os jatos CSeries. Mas uma joint venture (ou alguma outra parceria formal de marketing) seria quase tão boa quanto para ambos os lados – e muito mais fácil de desfazer.

 Informações completas no The Motley Fool;


 Antes de encerrar. Quando surgem assuntos desse tipo, evite acreditar apenas em comentários, em pessoas que se aproveitam da sua posição profissional para espalhar informações sem pé nem cabeça, e principalmente, sem citar nenhuma única fonte. Procure sempre formar a sua opinião, pense sobre o assunto, questione-se, não caia na armadilha de fazer da opinião dos outros a sua.




2 comentários

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  1. Eng. Joel Robinson

    Bem colocado. Eu trabalhei 10 anos na Embraer (Tucano, EMB-120 Brasília, AMX – 4 anos na Itália, CBA123, início do KC390 e o EJ95) e afirmo que é a melhor coisa a acontecer. A Embraer tem parceria com a Boeing há muitos anos, pois fornece os painéis de fibra de carbono para a Boeing. Tem muito pseudo jornalista e os tais “especialistas” falando baboseira. Temos que começar a enfrentar os chineses que estão vindo a toda, e esta parceria é fundamental para ambas, o resto é conversa mole. Perfeito seu último paragrafo.
    Best regards.

    • Rafael L

      Muito obrigado. Talvez não tenhamos a mesma visibilidade que esses “jornalistas e especialistas” possuem. Mas podemos tentar mostrar as coisas de um modo diferente, procurando sempre citar fontes e dar sugestões para que as pessoas busquem mais informações sobre assuntos que são importantes (ainda mais quando se trata de algo que nos dá tanto orgulho). Assim cada um terá a capacidade de ter uma opinião própria, ficando o mais longe possível de qualquer distorção ou manipulação dos fatos.


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